<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener('load', function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <div id="navbar-iframe-container"></div> <script type="text/javascript" src="https://apis.google.com/js/platform.js"></script> <script type="text/javascript"> gapi.load("gapi.iframes:gapi.iframes.style.bubble", function() { if (gapi.iframes && gapi.iframes.getContext) { gapi.iframes.getContext().openChild({ url: 'https://www.blogger.com/navbar/13072952?origin\x3dhttp://murdersongs.blogspot.com', where: document.getElementById("navbar-iframe-container"), id: "navbar-iframe" }); } }); </script>

Saturday, May 21, 2005

Canção de Boas-vindas

Joseph Brodsky
Tradução de Mario Sergio Conti
16/01/2001

Canção de Boas-vindas

Eis sua família, sua mãe, seu pai, seus avós.
Bem-vindo a esse sangue, esses ossos.
Por que você perdeu a voz?


Eis sua comida, eis sua bebida, eis o jantar.
E uns pensamentos, se quiser pensar.
Bem-vindo ao lar.


Eis sua estrada da vida quase virgem.
Bem vindo ela, a essa miragem.
Mesmo assim, boa viagem.
---
Eis seu aluguel, eis seu pagamento.
O dinheiro é o quinto elemento.
Bem-vindo ao investimento.


Eis sua colméia, o enxame, multidões.
Bem-vindo a tantas populações:
Você é um em cinco bilhões.


Bem vindo à lista telefônica onde reluz seu nome.
Numa democracia, um dígito é um homem.
Bem-vindo à busca de renome.
---
Eis seu casamento, e eis um divórcio todo seu.
E agora os erros irreversíveis que cometeu.
Bem-vindo, você se fodeu.


Eis você com a lâmina junto à jugular.
Bem-vindo, auto-terrorista singular,
Ao seu Oriente Médio particular.


Eis seu espelho, eis sua pasta de dente.
Eis o polvo no seu sonho recorrente.
É seu esse grito de demente?
---
Eis o sofá, a TV, o debate sobre a crise.
Eis seu candidato falando cretinice.
Bem-vindo ao que ele disse.


Eis sua varanda, o carro que passa apressado.
Eis seu cachorro cagando na sala, folgado.
Bem-vindo ao seu olhar culpado.


Eis as cigarras e eis um pássaro piando à tarde.
A lágrima que pinga no seu chá pela metade.
Bem-vindo à eternidade.
---
Eis sua radiografia com uma mancha no pulmão.
Bem-vindos os comprimidos para o coração.
Bem-vindo seja você à oração.


Eis sua tumba, o cemitério que se estende além.
Bem-vindas as vozes que dizem "Amém".
É o fim para você também.


Eis seu testamento, mas ninguém o lê.
Eis sua missa, mas rezar quem há de?
Eis a vida sem você.
---
E eis as estrelas que não estão nem aí
Para você ter ou não estado aqui.
Meu velho, é isso aí.


Eis que não sobrou nada do seu passo.
Da sua face não ficou traço.
Bem-vindo ao espaço.


Bem-vindo, aqui não se respira.
No espaço aberto tudo expira.
Só Saturno segura a pira.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home